Departamento de Psicologia e Sociologia 

Regente: Prof. Doutor João Hipólito

Docente: Prof. Doutor João Hipólito

 

Trabalhos apresentados pelos alunos  de Psicopatologia I

 

  • N.B. A publicação destes trabalhos destina-se a promover o intercâmbio entre os alunos assim como a suscitar críticas, comentários e correcções e não implicam nem a responsabilidade do docente nem a consideração destes textos como plenamente correctos do ponto de vista quer da forma quer dos conteúdos.

 

UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA

LICENCIATURA EM PSICOLOGIA

 

UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA

LICENCIATURA EM PSICOLOGIA

 

 

2º ANO – PSICOPATOLOGIA I

 

 

 

 

Alucinações e Delírios

 

 

 

 

Paulo Fernando da Cunha Pinto – Turma Pós-laboral – Nº 1988/0918

 

 

 

 

DOCENTE – Profª Doutor João Hipólito

                       Universidade Autónoma de Lisboa

 

 

Lisboa - 2006

 

Índice

 

Introdução                                                                                                                   2

Delírio                                                                                                                         3

Definição, Características e Processos Psicológicos                              3

Influência Cultural                                                                                             5

Classificação dos Delírios                                                                                 7

            Classificação quanto à compreensibilidade                                            8

            Classificação quanto à directriz geral                                         8

            Perturbações Delirantes – Tipos                                                           9

Formação dos delírios                                                                        12

Alucinações                                                                                                               14

Definição e outros conceitos                                                                           14

Alucinação, Ilusão e Percepção delirante                                                        15

Classificação das alucinações                                                              15

            Alucinações psicossensoriais                                                               15

            Alucinações psíquicas ou pseudo-alucinações                          17

Alucinações e Delírios em várias patologias                                                                18

            Perturbação Psicótica Breve                                                                           18

            Perturbação Esquizofreniforme                                                           18

            Esquizofrenia                                                                                                  19

            Outras perturbações com actividade alucinatório                                             20

Conclusão                                                                                                                 22

Referências Bibliográficas                                                                                           23

 

 

 

 

Introdução

 

O presente trabalho constitui uma abordagem sintética à temática das alucinações e dos delírios.

O método de trabalho consistiu na pesquisa bibliográfica sobre o tema, perceber os pontos comuns aos vários autores consultados e deste modo apresentar alguns conceitos e classificações devidamente aceites nos meios académico e científico.

Sobre os delírios apresentaremos uma definição, os processos psicológicos e características associadas bem como uma abordagem aos tipos de classificação e à influência cultural sobre os mesmos.

Quanto às alucinações, após a definição, faremos a ligação a outros conceitos e abordaremos os vários tipos existentes.

No último ponto deste trabalho veremos a ligação das alucinações e dos delírios a algumas patologias ou perturbações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delírio

 

Definição, Características e Processos Psicológicos

 

            O delírio é uma ideia ou conjunto de ideias que não corresponde à verdade. Trata-se de uma convicção falsa, inabalável, sem prova adequada e contrária ao contexto sócio-cultural e científico do momento.

            A palavra delírio etimologicamente significa sair dos trilhos e por definição consiste na alteração da capacidade de distinguir o falso do verdadeiro.

            Jaspers, citado por vários autores, propõe que essa incapacidade não seja resultante de uma perturbação da inteligência nem que seja secundário a uma alteração temporária do estado de consciência, o que neste caso se designa por Delirium.

            Todavia nem todas as convicções falsas podem ser consideradas delírios. Se estiver relacionada por exemplo com falta de cultura ou conhecimentos podemos falar em ignorância. As convicções filosóficas ou religiosas também não podem ser consideradas delírios, ainda que algumas pessoas elas sejam erradas.

Pode considerar-se um síndrome constituído por um conjunto de ideias mórbidas, que se manifestam numa alteração fundamental do juízo, e nas quais deposita uma convicção forte e inabalável. Este conteúdo de pensamento inadequado constitui o tema delirante.

O pensamento constitui a base da nossa actividade psicológica, que orienta e integra as representações (imagens) e os outros dados elaborados pelo conhecimento (ideias) em juízos e conceitos, os quais podem ser concretos ou abstractos.

No delírio, os mecanismos associativos do indivíduo fogem da realidade e da lógica , podendo levar o mesmo a formar juízos e raciocínios anormais e originando porventura alucinações, percepções delirantes ou ideias delirantes.

Apresentam-se como características gerais dos delírios a sua resistência e irredutibilidade perante a lógica e a experiência; a sua tendência crescente e difusão por toda a consciência, tornando-se o centro de toda a vivência do indivíduo; a falta de auto-consciência do doente relativamente à perturbação.

Assim, a ideia ou tema delirante é a realidade privada do doente e que o separa da comunidade onde a realidade dos indivíduos sãos é a sua percepção sociocultural e situacional dos pontos comuns e em acordo.

“O doente delirante está só com o seu delírio (isolamento), afastado do mundo comum aos outros (alienação).” (Scharfetter, 2005, pg. 248)

Além da ideia delirante, é importante perceber ou pelo menos identificar os processos psicológicos, também chamados de mecanismos geradores, que de forma patológica contribuem para o delírio. Assim, na Intuição o sujeito adquire como verdadeira uma ideia falsa sem qualquer tentativa de justificação lógica; através da Imaginação constrói um cenário que se vai enriquecendo com inúmeros acontecimentos e factos com os quais pretende justificar a sua ideia inicial; na Interpretação o sujeito atribui significados errados a factos reais, mantendo assim um raciocínio coerente com a ideia de base; através das Alucinações, que são percepções sem objecto, como veremos mais adiante, atribui mais consistência à sua ideia delirante; nas Ilusões, as quais não se podem confundir com as alucinações por se tratarem de erros de interpretação de objectos percebidos, ele encontra por vezes mais um reforço para o seu tema delirante.

Diz-nos Scharfetter (2005, pg. 250) que o doente delirante está absorvido pelo pensamento delirante e que o mesmo determina a sua vivência. O delírio segundo este autor pode ser sustentado por outras lembranças e alucinações confirmadoras, por observações interpretadas no sentido do delírio(percepções delirantes) e ainda por uma elaboração delirante que consiste em fundamentações, deduções e associações. A esta estrutura consistente e coerente, fechada sobre si mesma chama de sistema delirante.

 

 

Influência Cultural

 

            Numa perspectiva transcultural pode dizer-se que o delírio ocorre em todas as partes do mundo. O elemento cultural é uma vertente importante nesta temática pela subjectividade que lhe está associada. Assim, perante uma situação concreta qualquer análise deve partir de uma caracterização da sociedade e dos grupos sociais onde o indivíduo se encontra inserido ou com os quais se cruza na sua vivência diária.

            Ménéchal (2002, pg.53) afirma que a análise do delírio depende da cultura ambiente. Nas sociedades onde o animismo ainda persiste apresentam uma maior tolerância para com os indivíduos que apresentam delírios, considerando-os por vezes como intérpretes do divino. Em contrapartida nas sociedades mais evoluídas, mais racionais, o sujeito delirante entra em ruptura com as mesmas, provocando o seu isolamento e contribuindo para a organização de perturbações no comportamento.

            “O estatuto sociocultural exerce influência sobre:

-         predisposição para o delírio e a decorrente frequência do delírio;

-         conteúdo do delírio, temática do delírio;

-         formação do delírio (concepção);

-         evolução e desenlace.” (Scharfetter, 2005, pg.288)

 

A influência cultural manifesta-se nos delírios a vários níveis, vejamos:

-         na formação do delírio – as explicações diferem de cultura para cultura, dependendo da visão que cada uma delas tem do mundo. Por exemplo, nas sociedades nas quais existe uma crença geral em espíritos, os indivíduos têm menos tendência a desenvolver delírios, mas poderão desenvolve-los de forma intensa se saírem do grupo a que pertencem. Na Europa, o delírio apresenta uma elaboração mais intensa e forte tendência para a cronicidade. Murphy, 1967 citado por Scharfetter(2005) afirma que na Índia ocorre apenas uma estruturação do delírio, mas mesmo assim torna-se difícil distingui-lo de uma invenção fantástica ligada a mitologias privadas.

-         no conteúdo do delírio – neste ponto as diferenças nos temas delirantes podem ser provocadas pelas diferenças religiosas, pelas diferenças tecnológicas entre sociedades ou até pela evolução tecnológica ao longo dos tempos (por exemplo a perseguição das radiações, dos radares, etc., ou o delírio hipocondríaco versus a divulgação dos conhecimentos médico e anatómico).

-          na evolução do delírio – ao contrário do que seria desejável, nas sociedades europeias, a pressão para se encontrar uma explicação e justificação contribui para a cronicidade do próprio delírio; em contraposição, nas sociedades em que o delírio é aceite nas crenças colectivas, a sua assimilação como relação com o divino ou enfeitiçamento proporcionam um esbater do mesmo.

 

 

Classificação dos Delírios

 

            A forma como se classificam os vários tipos de delírios difere de autor para autor. Alguns focalizam-se apenas nas classificações mais comuns, independentemente da sua forma e ordem de apresentação, outros optam por classificações mais complexas e exaustiva.

            Teixeira(2005), refere que as classificações dos delírios são muito variadas e podem ser efectuadas de acordo com diferentes critérios:

-         natureza do material delirante – conjunto de fenómenos utilizados na formação do delírio: alucinações, ilusões, interpretações, etc.

-         número de temas delirantes – um ou mais do que um tema delirante

-         carácter formal – ordenação e lógica; sistematização, etc.

-         directriz geral – por exemplo, delírio de grandeza ou delírio de perseguição

-         compreensibilidade – critério fenomenológico de compreensibilidade genética introduzido por Jaspers

-         Factores causais – natureza dos estados psicopatológicos associados

-         Evolução – agudos, crónicos ou residuais

 

 

Afim de não prejudicar o carácter sintético deste trabalho optou-se por apresentar as classificações dos delírios quanto à compreensibilidade e à directriz geral e de seguida a apresentação dos vários tipos de perturbações delirantes de acordo com a classificação do Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais – DSM-IV-TR.

 

Classificação quanto à Compreensibilidade

 

Assim, no que se refere à compreensibilidade podemos encontrar os Delírios Primários, também chamados de puros, que são caracterizados por um juízo falso da realidade e que, segundo Carvalho Teixeira(2005), surgem sem causa aparente a partir de experiências delirantes primárias. Segundo este autor, o processo psicopatológico como uma rotura entre o passado histórico-biográfico do indivíduo e a situação actual, como no delírio esquizofrénico.

O juízo falso deve apresentar três características: 1.uma convicção e crença inabalável; 2.incompreensível para o indivíduo normal e impossível de se sujeitar a correcções através da experiência ou argumentação lógica; 3.conteúdo não plausível

Os delírios secundários partem de duma experiência anterior (alucinação, perturbação afectiva, etc...) e as reacções deliróides surgem como respostas patológicas a vivências e acontecimentos reais. (Teixeira, 2005)

           

Classificação quanto à Directriz Geral

           

            Neste tipo de classificação é tido em conta o sentido geral do delírio ou se quisermos, as ideias delirantes que dominam.

            Os Delírios expansivos caracterizam-se pelas idéias delirantes de grandeza (exemplo: estados maníacos delirantes).

            Os Delírios depressivos estão associados a idéias delirantes de autodesvalorização (exemplo: depressões psicóticas).

            Os Delírios persecutórios são dominados por idéias delirantes de perseguição.

                                                            

 

Perturbações Delirantes – Tipos

 

            Cordeiro et al.(2005) utiliza o termo Perturbação Delirante, o mesmo que é utilizado no DSM-IV, para classificar alguns dos delírios mais vulgares. As síndromes delirantes pertencem, segundo este autor, a um conjunto mais alargado cuja designação, Síndrome Esquizomorfa, se aplica com relativa freqüência em clínica psiquiátrica e onde encontramos ainda as síndromes esquizofreniformes e esquizofrénicas.

            A perturbação delirante caracteriza-se por persistentes idéias delirantes não bizarras, sobre situações que podem ocorrer na vida real, com a duração de pelo menos um mês, com eventuais alucinações transitórias relacionadas com o tema do delírio

            Trata-se de uma patologia muito mais rara do que a esquizofrenia da qual se distingue pela inexistências de sintomas característicos tais como alucinações proeminentes, idéias delirantes bizarras, discurso desorganizado e comportamento desorganizado ou catatónico (Frances & Ross, 2004)

 

            Importa também assegurar de que a Síndrome delirante “não é resultante dos efeitos fisiológicos directos de uma substância como, por exemplo, abuso de uma droga, de um medicamento, nem decorre de uma afecção física geral.” (Cordeiro et al., 2005, pg.614). Neste caso poderíamos estar perante uma situação de Delirium, síndrome clínica e orgânica de etiologia múltipla que facilmente se confunde com o conceito de Delírio ou Perturbação delirante. Trata-se de uma alteração da consciência com perturbação cognitiva, cujos sintomas normalmente se desenvolvem num período curto de tempo e não são constantes ao longo do dia.(Frances & Ross, 2004).

            Para clarificar, podemos afirmar que o delírio é um sintoma observado principalmente nas esquizofrenias e o delirium uma categoria diagnóstica da Classificação Internacional de Doenças – CID-10 e do DSM-IV, já referido anteriormente.

 

            Perturbação delirante tipo persecutório

            Caracteriza-se por uma ideia sistematizada e coerente de perseguição que se desenvolve a partir de uma situação, uma injustiça por exemplo, ou de vários acontecimentos relacionados. O doente acredita que alguém conspira contra si, o persegue com o objectivo de o prejudicar, envenenar ou arruinar a sua reputação. Este quadro embora raro, corresponde ao tipo mais freqüente de perturbação delirante e era antigamente designado por paranóia.(Cordeiro et al., 2005)

 

            Perturbação delirante tipo grandeza

            Caracteriza-se por delírios de grandeza ou megalómanos consubstanciados por idéias de poder, de conhecimento ou de valor, acreditando o doente possuir grande talento ou ter feito descobertas fantásticas. (Cordeiro et al., 2005)

 

 

 

            Perturbação delirante tipo ciúme

            A fidelidade do companheiro/a é o ponto chave deste tipo de perturbação mais comum nos homens do que nas mulheres. Situações perfeitamente banais como gestos, objectos, atrasos ocasionais são tomados como provas irrefutáveis da traição e por isso alimentam o tema delirante. As idéias delirantes de ciúme podem ser encontradas com maior freqüência, por exemplo, nas esquizofrenias e nas psicoses alcoólicas, mas se aparecem isoladas como aqui tornam esta uma entidade clínica muito mais rara. Trata-se de uma patologia potencialmente muito perigosa, provoca intenso sofrimento conjugal e familiar e é acompanhada muitas vezes de violência verbal e física. (Cordeiro et al., 2005)

 

            Perturbação delirante tipo erotomania

            Nesta perturbação o indivíduo acredita ser amado por alguém famoso ou de status social ou profissional elevado. Toda a sua vida afectiva é centrada na sua actividade delirante, tomando como provas de paixão para consigo situações perfeitamente fortuitas como um olhar ou uma entoação de voz. É uma entidade rara e normalmente nestes casos o doente pode apresentar comportamentos violentos na perseguição à pessoa amada, atingindo quer a própria vítima como familiares próximos ou potenciais rivais. (Cordeiro et al., 2005)

 

            Perturbação delirante tipo somático

            Nesta perturbação, também conhecida por psicose hipocondríaca monossintomática, o doente acredita sofrer de uma doença física geral ou de alguma deformidade física, apesar da evidência em contrário. Infestação por insectos na pele, infecção por vírus ou parasitas, crença de que certa parte do corpo é feia ou funciona mal, odores corporais desagradáveis são alguns dos temas delirantes. Por vezes o doente chega a ser sujeito a vários exames e intervenções cirúrgicas para resolver o ser hipotético mal, provocando ainda mais frustação e aumentando o risco de suicídio.

 

            Perturbação psicótica partilhada

            Surge através do convívio prolongado com um indivíduo delirante. É composto por ideias delirantes de tipo persecutório ou outras, sistematizadas e normalmente apresentada por um indivíduo dependente ou submisso relativamente ao doente principal ou pessoa indutora. O CID-10 utiliza o termo perturbação delirante induzida.

 

 

Formação dos Delírios

 

            Teixeira(2005), apresenta-nos cinco modelos teóricos ou escolas que tentam explicar o aparecimento ou formação dos delírios.

            Segundo o modelo neurobiológico os delírios são resultantes da hiperexcitabilidade ao nível de alguns circuitos neuronais.                                                                                                

            Do ponto de vista cognitivo, a resposta encontra-se em esquemas cognitivos disfuncionais sobre o Eu e o mundo e em processos cognitivos ligados às emoções os quais através de alterações do pensamento promovem a formação e manutenção dos delírios.

            Para o modelo psicanalítico os delírios encontram-se ligados a mecanismos de defesa do Eu contra pulsões geradoras de sentimentos de culpa.

            A origem dos delírios pode ser originada por vivências delirantes primárias ou ter origem em fenómenos afectivos, acontecimentos vividos ou traços patológicos de personalidade. Esta é a visão fenomenológica.

            Para o modelo existencial, as alterações profundas do estar-no-mundo, a perda da compreensibilidade natural do Eu explicam a formação dos delírios.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alucinações

 

Definição e Outros Conceitos

 

            “A alucinação, no sentido médico do termo, é um fenômeno patológico, definido como uma percepção sem objecto, ou, mais precisamente, uma percepção sem objecto para perceber.”(Doron & Parot, 2001, pg.50)

            Como iremos ver mais adiante podemos dividir as alucinações em Psicossensoriais e Psíquicas.

            As primeiras como o próprio nome indica estão ligadas aos sentidos. Neste sentido, podemos dizer que a alucinação é uma percepção sensorial sem que o respectivo orgão sensorial seja estimulado. Por vezes, a intensidade do delírio que ocorre em simultâneo com a alucinação confere ao que o indivíduo percepciona o estatuto de verdadeiro.

            Como as alucinações são alterações ao nível perceptivo é importante lembrar que alguns factores pessoais e até culturais têm uma importância relevante na formação da percepção. Os valores culturais atribuídos aos acontecimentos, objectos e vivências desempenham um papel importante na forma como percepcionamos. O mesmo fenómeno pode ser percebido de forma diferente por pessoas diferentes.

            Por outro lado não podemos atribuir um significado patológico a alucinações ocorridas em rituais religiosos ou a falsas percepções ocorridas durante o sonho.

 

Alucinação, Ilusão e Percepção Delirante

 

            Contrariamente à alucinação, na ilusão existe a percepção de objecto real mas com uma interpretação incorrecta. As ilusões normais podem ocorrer por diversos factores tais como cansaço, sugestão ou tensão emocional. As ilusões patológicas estão normalmente relacionadas com outras patologias e influenciam o comportamento do indivíduo. Podem estar relacionadas por exemplo com psicoses tóxicas, ataque de pânico, ansiedade ou depressão.

            Na percepção delirante ocorre uma alteração do significado de uma percepção real, de modo a que a mesma se torne coerente com o tema delirante do indivíduo.

 

Classificação das Alucinações

 

            Teixeira(2005) remete-nos para a clássica distinção entre alucinações verdadeiras ou psicossensoriais e pseudo.alucinações ou psíquicas.

 

Alucinações Psicossensoriais

            Alucinações auditivas

            São as mais freqüentes e podem aparecer sob a forma de zumbidos, ruídos, vozes, diálogos, o próprio pensamento do doente ou vozes do sobrenatural, etc. Normalmente o doente reage com muita ansiedade às alucinações auditivas porque muitos dos diálogos que ouve têm um conteúdo condenatório ou caluniador sobre si próprio.

            Alucinações visuais

            Podem ser simples, como por exemplo luzes, estrelas ou quadrados, ou complexas, como por exemplo figuras, pessoas, animais, cenas, etc. Muitas vezes a percepção é tão clara que os objectos se apresentam com as cores e contornos perfeitamente definidos que dificilmente são contrariados por argumentação lógica.

            No delirium tremens do alcoólico, provocado pela abstinência do álcool, as alucinações visuais apresentam predominantemente a forma de bichos e animais repulsivos como cobras, aranhas, percevejos ou lagartos. Este tipo de alucinações têm o nome de zoópsias e as mesmas transmitem uma grande ansiedade e apreensão.

 

            Alucinações olfactivas e gustativas

            Normalmente os dois tipos estão associados e são raras. Podem estar associadas a cheiros agradáveis e desagradáveis, desde perfumes maravilhosos a cheiro de putrefacção de cadáveres. Os gostos alucinados podem ser de sangue, terra ou gostos nauseabundos.

 

            Alucinações tácteis

            Caracterizam-se por sensações de queimadura, beliscões ou formigueiros e normalmente aparecem relacionadas com alucinações visuais zoopsicas. Podem originar idéias delirantes de infestação.

 

            Alucinações cenestésicas ou corporais

            Neste tipo os pacientes sentem os seus órgãos internos ocos ou apodrecidos ou ter deformações corporais.

 

            Alucinações cinestésicas ou motoras

            São percepções de movimentos corporais que o próprio doente não efectuou.

 

Alucinações Psíquicas ou Pseudo-alucinações

            Ao contrário das alucinações verdadeiras, as pseudo-alucinações consistem em vivências imaginárias, representações plásticas ou imagens interiores, que não implicam a forma de um objecto percepcionável nem a sua determinação espacial.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alucinações e Delírios em Várias Patologias

 

            Quando se fala em sintomas psicóticos referimo-nos à presença de delírios e alucinações. Embora estes sintomas possam estar, ou estejam, presentes noutras patologias como o delirium ou a demência, neste capítulo iremos aborda-los no âmbito de algumas perturbações psicóticas, em especial nas esquizofrenias.

            Nas breves caracterizações seguintes iremos basear-nos nas descrições de Cordeiro(2005) e nas classificações do DSM-IV citadas por Frances & Ross(2004)

           

Perturbação Psicótica Breve

 

            Episódio de início agudo e duração entre um dia e um mês, caracterizado por elevada instabilidade emocional. Pode apresentar delírios e alucinações breves, o discurso é muito desorganizo e incoerente e o comportamento desorganizado ou catatónico.

 

Perturbação Esquizofreniforme

 

            Psicose de início abrupto e duração entre um e seis meses. Apresenta semelhanças com a esquizofrenia mas com uma componente emocional mais vincada, ocorrendo com freqüência alterações breves do estado de consciência, sensação de medo e alucinações bastante vivenciadas, com elevado risco de suicídio para o doente.

 

Esquizofrenia

 

            Culturalmente, o esquizofrénico preenche o estereotipo do “louco”, um indivíduo que causa grande estranheza social devido ao seu alheamento da realidade reconhecida.

            A esquizofrenia é provavelmente uma das doenças mais estudadas, continuando em aberto o debate se a mesma constitui uma só doença.

            É muito heterogênea em termos de sintomatologia, na sua evolução, na resposta à terapêutica e provavelmente nas suas causas. A tentativa para dividir esta patologia em categorias tem-se revelado inconsistente porque a maioria dos doentes apresenta uma sobreposição dos sinais e sintomas dos diversos tipos.

            As idéias delirantes aparecem com freqüência nos esquizofrênicos, normalmente de caracter persecutório ou somático. As alucinações são sobretudo auditivas e visuais. São ainda sintomas freqüentes na esquizofrenia o discurso desorganizado e o comportamento intensamente desorganizado ou catatônico.

 

Esquizofrenia Paranóide

            Constitui a categoria mais vulgar no adulto acima dos 25 anos. Nas fases iniciais o doente pode conseguir habituar-se à vida diária disfarçando idéias absurdas, mas com o evoluir da doença os sintomas tornam-se evidentes. Caracteriza-se por idéias delirantes de perseguição e de grandeza ou outras, e ainda de alucinações auditivas e verbais consubstanciadas em vozes acusatórias, que entram na sua intimidade e lhe dão ordens.

 

Esquizofrenia Hebefrénica

            Patologia mais freqüente nos jovens dos 15 aos 25 anos. Inicia-se com queixas depressivas, dificuldades de concentração e fracasso escolar. Os indivíduos manifestam algum desmazelo pessoal na apresentação, vestuário e alimentação e forte perturbação das áreas instintiva e afectivas.

            Nesta categoria as idéias delirantes e as alucinações são esporádicas, pouco sistematizadas e incoerentes.

 

Outras Perturbações com Actividade Alucinatória

 

            Apresentamos agora alguns estados psicopatológicos os quais, segundo Teixeira(2005), apresentam actividade alucinatória.

 

Psicoses Alcoólicas

            O estado de confusão mental proporciona alucinações visuais e tácteis muito vivas e associadas a ilusões, provocando por exemplo o delirium tremens, no caso de abstinência. Nas alucinoses alcoólicas ocorrem alucinações auditivas, sem alteração do estado de consciência.

 

Experiência Psicadélica

            Alucinações visuais com deformações espaciais e cromáticas provocadas por LSD e outras substâncias alucinogénias.

 

Psicoses Afectivas

            Pode verificar-se actividade alucinatória nos episódios maníacos e depressivos.

 

Perturbações da Personalidade

            Possibilidade de actividade alucinatória nos estados dissociativos e nas psicoses reactivas breves.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conclusão

 

            Em Psicopatologia o grande número de sinais e sintomas existentes e a sua presença múltipla em várias patologias, tornam difícil a tarefa de diagnosticar.

            O Professor Pio-Abreu(2006) na introdução do seu divertido, mas sério, livro Como tornar-se doente mental fala-nos precisamente na dificuldade de diagnóstico, provocada pelo carácter vago de alguns sintomas ou por uma exigência do próprio doente que pretende a atribuição de uma patologia à la carte.

            Neste trabalho debruçámo-mos sobre dois desses sintomas, as alucinações e os delírios, paradigmáticos das doenças do foro mental.

            Demos uma ideia geral das características de cada um destes sintomas, dos subtipos existentes e a sua ligação a algumas das patologias mais frequentes. Tentamos também ajudar a efectuar a distinção entre termos muitas vezes alvo de confusão, como por exemplo delírio e delirium.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

 

Abreu, J.L.P. (2006). Como tornar-se doente mental. (14ªed). Lisboa: Dom Quixote

 

Cordeiro, J.(Ed.) (2005). Manual de Psiquiatria Clínica. (3ªed). Lisboa: Fundação

         Calouste Gulbenkian

 

Doron, R. & Parot, F.(2001).Dicionário de Psicologia.(Gab. Tradução Climepsi Editores, Trans). Lisboa: Climepsi. (obra original publicada em 1991)

 

Frances, A. & Ross, R.(2004). Casos Clínicos DSM-IV-TR Guia para o diagnóstico diferencial.(J. Nunes Almeida, Trans). Lisboa: Climepsi. (obra original publicada em 2002)

 

Ménéchal, J.(2002). Introdução à Psicopatologia (2ª ed).(Fernandes, M.C., Trans). Lisboa: Climepsi (obra original publicada em 1997)

 

Scharfetter, C.(2005). Introdução à Psicopatologia Geral.(Olívia L., Trans). Lisboa: Climepsi. (obra original publicada em 2002)

 

Teixeira, J.A.C.(2005) Psicopatologia Geral: Introdução, Métodos e Modelos, Psicopatologia Descritiva. Lisboa: ISPA